A gramática visual do sertão
A matriz de tanta inspiração nasce em solos áridos
A moda europeia passou as últimas décadas obcecada com terra tones, couro como material nobre, artesanato elevado, utilitarismo desértico. O sertão nordestino faz isso há pelo menos duzentos anos documentados. E antes dos duzentos anos de documentos, aposto que já fazia, também.
Em 1816, um viajante português com nome de inglês, Henry Koster percorreu o interior do Rio Grande do Norte e descreveu o que via: calças de couro de cor ferrugem, faca no cinto, tudo feito à mão. Em 1902, o grande Euclides da Cunha comparou o vaqueiro a um guerreiro medieval, seu gibão de couro curtido, suas perneiras, luvas e chapéu formavam uma armadura fosca, sem brilho reluzente, cor de terra seca.
A caatinga tem espinhos que rasgam qualquer coisa que não seja couro, eu descobri isso ainda criança, no sertão na Paraíba, nas traquinagens de correr pelos terrenos so de camisetinha. Voltava topa lapeada. O sol do semiárido exige cobertura total, mas o calor não deixa que nada pesado seja uma opção. O vaqueiro precisava se mover, montar, e trabalhar, sem deixar de ser estiloso - o sertanejo é orgulhoso demais de sua terra pra não ter estilo. Daí, pariu-se uma gramática visual — um sistema de escolhas estéticas que respondem ao ambiente, se reforçam mutuamente, e produzem uma identidade reconhecível. Isso que os acadêmicos do design chamam de gramática, eu chamo de sabedoria sertaneja.
O caminho mais longo
Essa inteligência não nasceu do zero no sertão, ela tomou um caminho comprido, veio se fortalecendo por um monte de milhas.
Os colonizadores portugueses que chegaram ao Nordeste no século XVI eram herdeiros culturais da Península Ibérica moura, os grandes modernizadores da idade média. Durante sete séculos de dominação árabe em Portugal e na Espanha, técnicas de trabalho com couro, vocabulário têxtil e padrões estéticos se misturaram ao DNA ibérico, e vieram de navio para o Brasil junto com a galera de Cabral. Os trajes do vaqueiro nordestino foram inspirados nos vaqueiros andaluzes, herdeiros diretos das tradições muçulmanas da Andaluzia.
O próprio nome gibão deriva do árabe juba, o alforge do al-hurj, matulão vem de maftulah, “saco de viagem” em árabe. A técnica de decorar couro com arabescos geométricos, chamada guadameci, vem diretamente do árabe gadamisii, e seus motivos têm paralelos diretos na arquitetura islâmica da Mesquita de Córdoba e de Medina Azahara. Isso tudo são, no meu ver, pontos num mapa. Uma rota histórica, de como uma estética atravessou o Mediterrâneo, chegou em Lisboa, embarcou num navio e foi parar no agreste paraibano (bem, no do Nordeste todinho, mas vou falar de onde eu vim, né?).
No sertão, essa herança ibero-árabe encontrou outra coisa. Povos indígenas do semiárido com suas próprias técnicas de curtimento e tecelagem, africanos escravizados que trouxeram seus saberes têxteis, tudo misturado num território específico, respondendo a condições específicas, e produziu uma estética específica. Os artesãos que dominam essa técnica até hoje são chamados de vaqueiros-artesãos ou, mais poeticamente, cavaleiros-cantadores. O sertão, no seu perene exercício de criação, bebeu do mundo e sintetizou uma linda construção estética, que ao ser ponto de chegada, virou ponto de partida para tantos.
O cangaço como radicalização
As vestes do cangaço partem do vaqueiro, mas se transformam em algo único. Bordados de flores nos bornais, chapéus completamente enfeitados, espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores, coisa que era até contraproducente, já que desse jeito, eles se tornavam alvo de fácil visibilidade até no escuro. Uma escolha que parece paradoxal para um bando em fuga, mas que fazia sentido dentro de outra lógica: a indumentária funcionava como ferramenta de afirmação política, instrumento de propaganda junto às populações sertanejas, blindagem mística-sincrética contra o mau-olhado, e sistema de distinção de hierarquia interna do bando.
Lampião sabia de imagem antes de qualquer escola de comunicação. Oxe, o caba podia ser professor das Belas Artes tranquilamente. Antes mesmo de entrar no cangaço, ele costurava suas roupas e sabia bordar à máquina com perfeição, sabia? Já pensasse, um caba bronco daquele bordando, rapaz? Ah, a poética do sertão não conhece limite! Foi ele quem criou um dress code para o bando — e foi Dadá, mulher de Corisco, quem o radicalizou ainda mais: a partir de 1932, ela lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus. O chapéu de Lampião tinha cerca de 70 peças de ouro — moedas, medalhas, adereços. Um repórter da época o chamou de “verdadeira exposição numismática”.
Isso num território que o resto do país insistia em ver como atrasado. Seus coletes, broches, cartucheiras e embornais bordados viraram símbolos de distinção, colocando em cheque, já no início do século passado, a ideia de um Nordeste rude e sem sofisticação. O chapéu de Lampião virou símbolo nacional na cabeça de Luiz Gonzaga, numa homenagem explícita. Zuzu Angel apresentou em seu primeiro desfile em Nova York, em 1970, uma coleção inspirada em Maria Bonita.
Lampião não usava aquela ruma de coisa porque era funcional. Usava por declaração. O cangaço não copiou a moda europeia — a moda europeia, a essas alturas, num sabia da missa um terço.
O apagamento
Em 2019, a Prada lançou uma sandália rasteira de couro trançado por 850 euros. Regina Casé apontou que era idêntica às feitas por artesãos de Caruaru, onde um par custa 60 reais na feira, se tu comprar caro!
Quando a moda internacional faz uma coleção de utilitarismo desértico, artesanato elevado ou earth tones com textura, raramente o crédito vai pro sertão do Piauí ou pro agreste alagoano. Vai pra algum lugar que soa mais palatável pro consumidor europeu. Martha Medeiros transformou técnicas ancestrais do sertão em vestidos que desfilaram ao lado de Yves Saint Laurent e Dior. Os irmãos Campana fizeram linha de móveis com Espedito Seleiro, artesão do Cariri que trabalha couro há décadas. Espedito é citado às vezes, o sertão, raramente.
O mercado de moda construiu um sistema onde a origem importa menos que a validação. O mercado de luxo trabalha na mesma ética, entre seus vastos campos. Uma técnica secular do agreste vira “inspiração artesanal” quando passa pelo filtro europeu. O filtro não adiciona valor, ele redistribui crédito e tira da equação quem deveria ser o principal acionista.
O que fica
A gramática visual do sertão tem origem histórica verificável, lógica funcional coerente, e uma sofisticação estética que atravessou oceanos a braçadas largas. Árabe, ibérica, indígena, africana, tudo isso se encontrou num território específico e produziu algo que o mundo continua copiando, sem a ética da cópia em origem, sem nomear.
Ainda semana passada eu escrevi sobre a relação entre cópia e original, inspiração e drenagem. Peguei emprestado do filme ‘Cópia Fiel’, de Abbas Kiarostami a frase “A cópia tem o mesmo valor que o original, se for boa o suficiente.” para formar um raciocínio, e acredito que há uma relação rudimentar que se forma entre referência-cópia- criação-respeito que, quando feita em ode, eleva criador e criatura (relação naturalmente intercambiável). Mas também creio que há uma distância muito grande entre referência-cópia-criação-respeito entre apropriação colonizadora. Não se pode invadir e saquear livremente com o pretexto de difundir. Passou do tempo de aceitarmos entregar nossas riquezas em troca de espelhos.
O sertão não é referência. O sertão é matriz.
Se quiser me acompanhar fora daqui, estou no Instagram em @paulalucio - arte, moda, alguma coisa que eu li e achei importante, e as minhas bichas com frequência desproporcional ao restante. A inscrição no Substack é gratuita e, pelo menos por enquanto, não tem algoritmo te dizendo o que ver primeiro.






Paula, sinto que estou em casa ao ler esse texto. Matriz bonita, a do nosso sertão. Em 2020 eu lancei um álbum em que a primeira música, De Partida, dizia isso "o sertão é a resposta". E ao te ler eu me sinto fazendo coro, lembrando ainda outra vez que sim, temos algo único, uma estética e uma poética que resulta dessa combinação do sertão.
Pra mim esse é um daqueles textos chapéu de couro, camisa florida, calça com imbira, chinelas zarpantes e avoadoras ao mesmo tempo. Obrigada!